domingo, setembro 04, 2005

TRADUZIR-SE (FERREIRA GULLAR)


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Na Vertigem do Dia (1975-1980)

2 comentários:

Anônimo disse...

Lindo poema!

Anônimo disse...

é anonimo 1, a vida é para profissionais...