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sábado, outubro 10, 2020

Uma carta de amor


Hoje, preparando uma aula de psicanálise para o IPLA e relendo outros trabalhos, encontrei um resumo que fiz de uma conferência de Jorge Forbes em que ele finaliza com a leitura (tradução espontânea do francês) de uma belíssima carta de Denis Diderot à sua amada Sophie Volland. Acho que é a carta que tem o final mais lindo que já vi:


Escrevo sem ver. Eu estive aqui. Queria só te dar um beijo na mão e ir embora. E, no entanto, voltarei sem essa recompensa. Mas será que eu não estaria absolutamente recompensado, bastando te mostrar o quanto eu te amo. São nove horas. Eu escrevo que te amo, ao menos eu quero escrever isso para você; mas não sei se a caneta se presta ao meu desejo. Será que você não vai aparecer para que ao menos eu possa te dizer isso e depois ir embora rápido. Adeus minha Sophie, boa noite. Teu coração não está te dizendo que eu estou aqui. Taí, a primeira vez que escrevo nesta escuridão total. Esta situação deveria me inspirar muitas coisas ternas. Eu só sinto uma, é que eu não quero ir embora. A esperança de te ver um instante me retém, e eu continuo falando com você sem saber se estou escrevendo. Em todos os lugares onde não houver nada, leia eu te amo.


O texto original, em francês e a tradução literária dessa carta, por Alain Mouzat, está publicada no site de Jorge Forbes. (Clique aqui para acessar)

segunda-feira, agosto 31, 2020

Hamilton – o musical




Em cartaz na Broadway desde 2015, o musical criado por Lin-Manuel Miranda, conta a vida de Alexander Hamilton, baseado na biografia "Alexander Hamilton" do historiador Ron Chernow.

Sucesso de bilheteria, Hamilton - An American Musical, chama atenção por vários aspectos: a qualidade dos atores/cantores, a forma de encenação tendo o rap como linguagem musical, as letras das músicas, a mistura de raças no elenco desmistificando preconceitos, tudo, tudo legitima o espetáculo, um espetáculo de vanguarda.

Mais impressionante ainda é a história contada de Hamilton. Um jovem, que sem entrar na queixa, que o deixaria fora do lugar, por ser um imigrante sem família, sem posses, se posiciona e legitima seu desejo num outro país, que vem a ser sua nação, sua razão de viver.

Hamilton é um sedutor. Usa as palavras, tanto na escrita quanto na fala para seduzir seus ouvintes, para atrair seguidores a lutar por aquilo que acredita, pelo seu desejo, por seu projeto de vida. Com cartas conquista sua amada, com discursos defende suas ideias de liberdade e da construção de um novo país.

Ao assistir o musical, não pude deixar de lembrar das palavras de Freud nas Conferências introdutórias à psicanálise: “Originalmente as palavras eram mágicas; e ainda hoje conservam muito da velha magia. Com palavras uma pessoa pode tornar outra feliz ou levá-la ao desespero, com palavras o professor transmite seu saber aos alunos, com palavras o orador arrebata uma plateia e determina os julgamentos e decisões de seus ouvintes. Palavras despertam afetos e são o meio universal de os homens influenciarem uns aos outros”.

Alexander Hamilton tinha um desejo e responsabilizou-se por ele. Criou uma nação, um sistema financeiro que funciona até hoje nos Estados Unidos. Deixou no mundo sua marca. Fez das palavras, da sedução, seu laço com o mundo.

Hamilton – o musical, agrada e impressiona.

Como obra de arte, nos toca, nos interpreta.

Ouça no Spotfy a trilha do musical HAMILTON

quinta-feira, agosto 13, 2020

AS PALAVRAS E A SEDUÇÃO

   


Originalmente as palavras eram mágicas; e ainda hoje conservam muito da velha magia.

Com palavras uma pessoa pode tornar outra feliz ou levá-la ao desespero, com palavras o professor transmite seu saber aos alunos, com palavras o orador arrebata uma plateia e determina os julgamentos e decisões de seus ouvintes.

Palavras despertam afetos e são o meio universal de os homens influenciarem uns aos outros.

(Freud: Conferências introdutórias à psicanálise)

quarta-feira, agosto 12, 2020

GILLES LAPOUGE


Gilles Lapouge era um apaixonado pelo Brasil.

Como poucos entendeu as diferenças e as particularidades deste país e do seu povo.

Jornalista e escritor, morreu há poucos dias, aos 97 anos. Ele se gabava de ter uma relação de 70 anos com o Brasil. Veio em março de 1951 pela primeira vez, convidado por Júlio de Mesquita Filho, para ser redator econômico de O ESTADO DE SÃO PAULO.

Seus artigos semanais no Estadão eram um deleite para mim. Mas, escreveu muitos livros, sendo que um deles é meu livro de cabeceira: Dictionnaire Amoureux du Brésil, publicado aqui pela editora Manole, que infelizmente mudaram o título por Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil. Uma pena essa mudança no nome, pois Dicionário Amoroso é uma coleção de uma escolha particular de verbetes de um tema escolhido pelo autor, no caso de Lapouge, seu amor pelo Brasil. É um livro obrigatório, que com seus verbetes nos faz viajar e descobrir um novo país, cheio de encantos, que sua ótica privilegiada nos mostra. 

Conheci esse grande escritor quando ele veio para o lançamento do acervo digital do Estadão, em 2012, há exatamente 8 anos (na noite de 12 de agosto). Gentil, elegante, bem-humorado, grande intelectual, fez matérias marcantes sobre personalidades, incluindo Charles De Gaulle e Jacques Lacan.

 Parecia que ele era imortal.... Vai fazer muita falta.

Deixo aqui o link de seu artigo sobre Jacques Lacan, belo e profundo. Cada vez que o leio me emociono.

Em seus últimos dias de vida, Jacques Lacan era um homem triste, frágil e cansado. Era um velho. Mas a morte jogou-o novamente no primeiro plano, obrigando a uma reapreciação do uso que fez da linguística para a decifração de Freud. Gilles Lapouge refaz a trajetória desse intelectual e recorda a curta, porém marcante, convivência que teve com LACAN.

Clique para ler: Lacan, por Gilles Lapouge


quarta-feira, julho 29, 2020

Sedução

         


A sedução move o mundo desde sempre. Antes era malvista, era sinônimo de enganação. Hoje esse entendimento mudou. A sedução é a base do laço social em TerraDois, como nomeia Jorge Forbes esse nosso tempo atual.

Giiles Lipovetsky, em seu livro “A sociedade da sedução – democracia e narcisismo na hipermodernidade liberal” faz um estudo exaustivo sobre a sedução, desde o início dos tempos até hoje. Uma leitura empolgante e interessante que nos provoca reflexões.

É importante estudar, se interessar pelo tema da sedução, porque na perda dos padrões universais, temos que ter outra forma do exercício da verdade, outra forma de orientação, que nos levou a dizer que o principal afeto da pós-modernidade é a amizade, que se sustenta na sedução, diz Forbes.

Cada pessoa deve se responsabilizar por sua singularidade, por passar no mundo sua invenção. E só vai conseguir passar sua invenção no mundo se for um sedutor.

A sedução é fonte de desejo, plataforma de desejo, diz Lipovetsky.

O artista seduz,
o professor só ensina se for um sedutor,
o amigo é um sedutor,
o amor só acontece quando somos seduzidos,
publicidade e marketing trabalham formas de sedução,
o analista é um sedutor. 

Sem sedução não há movimento.


terça-feira, agosto 14, 2012

PRAS CABEÇAS - ANTONIO PRATA


Excelente a análise de Antonio Prata, sobre as Olimpíadas de Londres 2012, no jornal FOLHA DE S.PAULO desta terça-feira. Leia a matéria na íntegra:

"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos", disse Winston Churchill sobre os pilotos ingleses, na Segunda Guerra Mundial. "Nunca tantos perderam tanto por tão pouco", digo eu, sobre os bravos guerreiros brasileiros que nos representaram nesta Olimpíada.

Foi um tal de ouro virando prata, prata virando bronze e bronze virando nada, na última hora, que é o caso de nos perguntarmos se não há, por trás de todas essas frustrações, um traço comum. Seria apenas azar ou sadismo dos deuses a queda de Diego Hypólito, o vento de Fabiana Murer, o bronze do Cielo, o "apagón" diante do México e a perestroikada que os russos nos deram no vôlei, quando ganhávamos por dois a zero e já tinha brasileiro (eu) gritando "é glas'nós't na fita!"?

Só Nelson explica, meus caros, Nelson Rodrigues e seu imorredouro diagnóstico do nosso complexo de vira-lata.

O patrício pode ser alto, forte, rico, talentoso, pode ter treinado como um chinês e ter médias de americano, mas na hora do vamos ver, quando o juiz apita, quando corre em direção à linha, quando flexiona as pernas para dar o salto, ele se enxerga banguela, desnutrido, desassistido; ele fraqueja.
É por isso que, pensando na Copa de 2014, na Olimpíada de 2016 e no futuro da nação, venho aqui propor ao governo a criação do Ministério da Psicanálise: pois de nada adianta gastarmos bilhões em infraestrutura se não sanearmos os subterrâneos da alma nacional.

O leitor consciente e politizado dirá que não faz sentido abrir mais um ministério, aumentar o funcionalismo e a burocracia, dar mais cargos ao PMDB etc. Concordo. Peguemos então um ministério que já exista e troquemos sua função. O Ministério da Pesca, por exemplo. A Dilma assina um decreto e os funcionários daquela pasta passam, como Simão, depois de encontrar Jesus, a ser "pescadores de homens".
Na chefia, sugiro uma mulher, porque elas não são frouxas, como nós --basta ver de que maneira o time de Neymar digeriu o gol do México e de que forma a equipe de Jaqueline reagiu ao set perdido pros Estados Unidos. Indico, como ministra, a psicanalista e colunista deste jornal, Ana Verônica Mautner, que além de mulher é húngara, povo que pode ser acusado de muitas coisas (não sei quais, essa é só uma frase de efeito), menos de refugar na hora do salto.

O Ministério da Psicanálise vai descobrir as raízes profundas de nossa viralatência. Vai fazer com que o brasileiro e, mais ainda, o atleta brasileiro, que é antes de tudo um forte, enxergue no espelho uma imagem digna de sua grandeza. Ele merece, nós também. Afinal, pode ser doce morrer no mar, Caymmi, mas morrer na praia é amargo pra caramba.

Link para o artigo na FSP - clique aqui

domingo, agosto 05, 2012

A ANÁLISE, SUAS ESCANSÕES E SEUS IMPASSES


Inscreva-se já!



De 6 de agosto a 1º de outubro, o IPLA realiza o terceiro curso de “enfim, A PSICANÁLISE NO DIVÃ!”.
Sob a coordenação geral de Jorge Forbes, analisa as complicações que podem surgir no decorrer da análise, os riscos, os erros e os acertos do analista lacaniano.

Fundamental para quem deseja aprimorar a práticaclínica, buscar aplicações da Clínica do Real para outras áreas de atuação, ou, simplesmente, quer conhecer melhor o processo da análise lacaniana.
O curso está disponível nas modalidades presencial e on-line.

Sempre às segundasfeiras, das 20h30 às 22h30, ou, a partir das 19h00 para os alunos da modalidade presencial.
Clique aqui  para saber mais.

Confira o site do IPLA: www.ipla.com.br

sábado, junho 02, 2012

INCONSCIÊNCIA E RESPONSABILIDADE - RESENHA NO ESTADÃO DE HOJE



O Estado de S. Paulo de hoje publica uma resenha crítica do livro de Jorge Forbes – Inconsciente e Responsabilidade – escrita pela Professora Leda Tenório da Motta.


Algumas frases desse artigo:

- Se tudo isso estiver certo, Inconsciente e Responsabilidade - Uma Psicanálise para o Século XXI, de Jorge Forbes, tem chances de ser o balanço de Lacan e a interrogação de seus préstimos a 100 anos de distância de Freud que pretende ser.

- Aqui, à verve se responde com a verve, numa contra-assinatura autoral digna da tarefa pretendida. E a melhor prova disso é certa nomenclatura principal do livro - o homem "desbussolado", o mundo “desbussolado”.

- Refere-se a essa situação não mais "pai-orientada" todo o esforço do autor no sentido de repensar o papel tanto dos que se arvoram em exercer a velha arte da cura pela palavra quanto dos que pela palavra buscam se libertar.

- Mas tampouco é estranha à liberdade de movimento de Forbes a palavra "responsabilidade", menos enfatuada que "ética" e "moral", que se costuma acionar em incursões deste tipo, menos culpabilizante e melhor administradora da angústia que toda chamada à moralidade desencadeia em quem é chamado.

- Nesta outra circunstância, o sujeito diz seu caos, como um poeta de si mesmo. Sem emprestar-lhe nenhuma acepção prazerosa tola, esse dizer desamparado e impositivo é o que Lacan chamou o "gozo".

- Seja seu anticatastrofismo, que, indisposto contra o lugar-comum da visão do "pandemônio", troca a recusa do presente pela suposição de que as pessoas não estão assim tão desorientadas como querem fazer crer as novas religiões, os recrudescimentos do conservadorismo e as psiquiatrias medicamentosas.

- E é bom ressaltar que é desse mesmo espírito dissidente que Forbes participa, quando reencaminha o gozo da palavra cravada como saída para nós sujeitos atuais, na contramão da vigilância do Grande Pai ideológico que, por aqui, segue reputando imorais os excessos do sujeito e da palavra.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

sábado, maio 26, 2012

VELHICE PARA QUE TE QUERO? - A PSICANÁLISE PODE ANALISAR


O Café Filosófico convocou a psicanálise para analisar a questão do envelhecimento nos tempos atuais:  Jorge Forbes fez uma conferência - debate com o título: "Velhice para que te quero?" na sexta-feira, 25 de maio, na CPFL Cultura - Campinas, SP, dizendo como a psicanálise responde a essa questão saindo do lugar comum.

Forbes começou com esses versos de William Shakespeare:

O mundo inteiro é um palco

E todos os homens e mulheres não passam de meros atores

Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis.
(Shakespeare)


Forbes descreve as 7 etapas da vida apresentadas pelo poeta - em que o ápice da vida era aos 40 anos de idade.

Em seguida lembra Heideger: um minuto de vida é idade suficiente para morrer.

JF continua: Uma preocupação do homem é saber o nome da morte. Para desenvolver esse raciocínio traz as 5 éticas/categorias trabalhadas por Luc Ferry:
1) A vida é natural: Para os gregos o mundo não deveria ter dúvida porque somos seres naturais - tal qual uma goiabeira, cada um de nós devia encontrar seu lugar na natureza e se ajustar.
2) O pensamento natural foi substituído pelo pensamento religioso - que oferecia outra vida após a morte e nos fazia todos iguais. Pressupõe a fé.
3) Uma nova transcendência que não seja a natureza e nem o Deus: o iluminismo. O saber - a razão - é colocado no lugar do divino. Quanto mais velho, o homem é mais erudito, mais feliz e mais sábio.
4) A era da desconstrução: todos os valores desmoronam. O filósofo Nietzsche pega seu martelo e quebra tudo.
5) A etapa final a que chegamos hoje. E com ela a pergunta: Há um saber para essa desconstrução? Há um modo de lidar com a morte? Luc Ferry propõe um novo humanismo - um novo laço social, que não é o religioso, nem a natureza e nem o iluminista. Jorge Forbes fala de um novo amor (Lacan falou disso, de um novo amor, no Seminário 20 - Encore) - um novo laço social que pede IR - Invenção e Responsabilidade.

Nietzsche instituiu o "amor fati" - o amor ao destino. Lacan fala do "´c'est ça" (é isso). Quando se chega ao "é isso" não há mais para quem se queixar. Todos nós nos vemos através do outro social, somos levados a responder ao outro social. Chega-se ao`"é isso" quando deixamos de fazer concessão ao outro social. Traduzindo em miúdos: fazemos concessão ao outro social pelo medo do ridículo - a resposta já foi dada pelo poeta (... todas as cartas de amor são ridículas (...) mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas ...).

Forbes dá três exemplos de velhos que inventaram um jeito singular de lidar com a velhice:

- Oscar Niemayer (104 anos) - continua trabalhando, criando e começou a aprender piano. Esqueceu de morrer!
- Fernando Henrique Cardoso (80 anos) - em seu último livro, "A soma e o resto", questiona o poder que ele mesmo exerceu.
- Chico Buarque (67 anos) - lançou um novo CD em que brinca com a diferença entre ele e a moça amada, como na canção "Essa pequena": ... meu tempo é curto e o tempo dela sobra, meu cabelo é cinza e o dela é cor de abóbora, mas sou tão feliz com ela ... http://youtu.be/ZRLayH21Gnk

Eles não tem medo do rídículo: não é ridículo aprender a tocar piano aos 100 anos; não é ridículo dizer que a capital não é Brasília, que está em todos os lugares; não é ridículo amar uma jovem de cabelos vermelhos quando seus cabelos são cinza ...

(JF lembra Roberto Carlos falando da música Detalhes: o importante é que enquanto eu canto os meus detalhes, vocês cantem os seus).

Esses três homens  (Niemayer, FHC e Chico) mantiveram a dúvida viva; inventaram soluções singulares. O mundo de hoje exige singularidades; quando não temos mais modelos temos pessoas - é uma questão de mudança de paradigma.

O velho não deve se acomodar à nomeação da morte. O novo velho é alguém que não foge do encontro, da surpresa, é alguém que suporta a contradição. Que tem uma postura ética - a responsabilidade por sua singularidade. Que não se preocupa com a compreensão, mas que o sentido faça um novo sentido para ele,  que ressoe em você, que te toque. Tá ligado?

segunda-feira, maio 07, 2012

CONGRESSO DE PSICANÁLISE EM BUENOS AIRES

O VIII Congresso da Associação Mundial de Psicanálise - AMP 2012 em Buenos Aires teve uma programação intensa, de segunda-feira a sexta-feira – 23 a 27 de abril, das 9h às 20:30h, no hotel Hilton em Puerto Madero, à beira do Rio da Prata (uma região mais nova da cidade, com muitos restaurantes – muito agradável para caminhar).
Participantes



Foi o congresso com maior número de participantes – cerca de 800 membros e 1500 não membros, totalizando 2374 pessoas. Muitos argentinos, franceses, brasileiros e pessoas da América Latina em geral.

Havia duas livrarias do congresso – uma da editora Paidós e outra da AMP – com livros lançados recentemente, como a edição castelhana dos Outros Escritos de Jacques Lacan. Levei 9 livros novos de Jorge Forbes (Inconsciente e Responsabilidade) que foram vendidos imediatamente.

Programação

O congresso teve conferência de abertura de Judith Miller, seguido de Leonardo Gorostiza – Presidente da AMP e Flory Kruger – Diretora do VIII Congresso.

Depois se seguiram várias mesas, a maioria sobre o passe e com testemunhos de passe. Os testemunhos chamam muito a atenção das pessoas, que comentam depois os relatos, que deixaram de ser “pornográficos” – como se estivessem tentando acertar uma fórmula de transmissão.

Parece que todo mundo agora quer fazer seu testemunho – nesse congresso teve o primeiro relato de Graciela Brodsky. Os novos AE – Analistas da Escola, se sentem tão reconhecidos pela nomeação que não cumprem seu papel, de analisar a Escola, como se não pudessem criticar a quem os reconhece. Fica uma “panelinha” dos reconhecidos.

Além das mesas sobre o passe, havia as mesas de temas da atualidade, como a que participou JF. Não trouxeram novidades. A mesa mais interessante foi da de Jorge Forbes – As subjetividades na época da tecnociência – em que ele apresentou o trabalho “A ciência pede análise”. Uma diferença no congresso: pela posição não contrária à ciência, como era esperado dos psicanalistas, pela clareza do texto (curto e preciso), pelos casos que exemplificou – deixou claro como a clínica opera, os debates que participa em movimentos importantes no Brasil (como na questão das Células-Tronco). A mesa tinha 6 participantes e dois coordenadores. Foi o único trabalho que movimentou as pessoas, fez com que tomassem partido, que argumentassem, rissem – o mais aplaudido. No telão, uma imagem inusitada, mostrava, no caso da leitura de La Sagna – um trabalho denso, chato, difícil, que contrastava com o de JF – o cinegrafista fez um close dos dois, de la Sagna lendo e JF acompanhando “interessado e fazendo caras expressivas” – as pessoas se divertiam com a interpretação de JF.

Os brasileiros estavam orgulhosos do trabalho de JF, do IPLA, da nossa vanguarda. Gorostiza veio abraçar JF ao final, demonstrando claramente que havia gostado da apresentação. Uma nova fase – do orgulho pela diferença, por aquele que diz o que não temos coragem de dizer e de fazer.



 

A quarta-feira foi dedicada à jornada clínica da AMP – 10 salas simultâneas com apresentação de 8 mesas com 2 trabalhos cada uma, num total de 160 trabalhos – casos clínicos – apresentados.

Também havia programação extra, como a reunião com Judith Miller, Gorostiza e Eric Laurent sobre autismo. Parece que era uma reunião com pessoas convidadas, escolhidas de vários institutos, de vários países, para discutirem as políticas da psicanálise em relação ao autismo. JF me colocou na sala e eu fui a única pessoa de São Paulo que participei da reunião.

Teve ainda a Assembléia Geral da AMP em que os não-membros assistem numa sala ao lado pelo telão. Forbes se posicionou falando da carta que havia enviado a Gorostiza (que nos leu aqui no módulo) e Ariel também se posicionou em relação à posição da psicanálise e ciência, na direção que JF tinha se colocado quando da apresentação de seu trabalho.

Havia várias atividades à noite, incluindo futebol, aulas de tango, exposição de arte e a festa de encerramento, que foi muito animada. Lá todos bebem, dançam e festejam o “somos da mesma turma”.

O que ficou

Eu participei de quase tudo e gostei de ter ido. Confirmei o avanço lento da AMP em contraste com a vanguarda que JF coloca o Brasil, em especial o IPLA. Gostei de ver esse reconhecimento do trabalho de JF por parte dos brasileiros e da coordenação da AMP.

Principalmente, gostei de ver que Jacques-Alain Miller rendeu-se ao trabalho apresentado por Jorge Forbes, quando em sua conferência de fechamento do congresso fala que há dois dias (depois de 2 dias da apresentação do trabalho “A ciência pede análise”) ele se sentiu provocado a pensar nas desordens do real, a partir do discurso da ciência e do capitalismo. Fez uma conferência que é uma releitura (mais impostada) do que JF vem falando há tempos, também baseada em Luc Ferry, mas não citando nenhum dos dois.

Agora é trabalhar mais e continuar sustentando nossa diferença no IX Congresso em Paris, em 2014.

Galeria de fotos:

quarta-feira, junho 10, 2009

CORRESPONDÊNCIA: SIGMUND FREUD - ANNA FREUD


O livro da correspondência entre Freud e sua filha Anna é um dos livros que tenho curtido ultimamente.

Publicado no Brasil em 2008 pela L&PM Editores, tem 511 páginas com cerca de 300 cartas trocadas entre pai e filha durante 34 anos (entre 1904 e 1938).

Traz algumas cartas impressas com a letra do próprio Freud (há até umas com caligrafia gótica), muitas notas de rodapé e anexos. Entrelaçando as informações e comentários - muitos do biógrafo de Freud, Ernest Jones - com as cartas, a história de cada um vai se tecendo.

A correspondência entre pai e filha é sempre algo interessante, e, em se tratando de Sigmund Freud, é ainda mais. Anna era a filha mais próxima ao pai e a única a segui-lo na psicanálise - aos 23 nos iniciou com ele uma análise.

Freud era um pai ciumento e possessivo como muitos pais. Chegou a interferir nas relações amorosas da filha, chegando a impedi-la de casar com Ernest Jones, um de seus pretendentes. Pai é pai, mesmo que seja Freud !

Aproveite esse feriado chuvoso e curta essa leitura. Vale a pena.

domingo, abril 12, 2009

PSICANÁLISE X "SWEDED FILMES"


A psicanálise tem mais a ver com o corpo do que com o raciocínio. É da ordem do ressoar. Hoje, mais do que nunca, temos a clínica do "gozo". Antes a psicanálise lidava com o "sentido" e agora, com o não-sentido, com as novas formas de lidar com a vida. Lidar com esse "gozo", com esse jeito de viver, de forma inventiva e responsável é a proposta da psicanálise.


Jorge Forbes tem trabalhado esses conceitos e também estudamos isso no último curso de Jacques-Alain Miller - Choses de Finesse en Psychanalyse (2008/2009). Confira os Aforismos psicanalíticos sobre a Segunda Clínica de Lacan, por Jorge Forbes, clicando no link: http://www.psicanaliselacaniana.com/mural/textos/documents/JF-AULAINAUGURALDOIPLA2009.pdf


A psicanálise é da ordem do singular. Ela transforma soluções particulares em transformações singulares.

Podemos dizer que os "sweded filmes" são soluções singulares?
É uma forma particular de ver, sentir e representar um filme. É da ordem da invenção. É a forma de passar sua singularidade no mundo.

Da mesma forma que não foi possível rebobinar o filme, mas criar uma nova história, na psicanálise não se rebobina a vida, mas pode-se reinventá-la. (Elza Macedo)


O filme BE KIND, REWIND, (REBOBINE, POR FAVOR - título do filme em português) que provocou uma onda de "sweded filmes" - mostra releituras e filmagens de clássicos feitos por leigos - como uma forma de mostrar ao mundo, através do YouTube e de outros canais da internet, sua forma singular de "gozo". Criaram até um verbo para essa atividade: SUECAR.
Um novo sintoma da globalização.

Veja as referências da Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Be_Kind_Rewind


Veja pelo YouTube um exemplo que já tem cerca de 336.000 exibições, um sweded filme de BE KIND, REWIND - produzido por pessoas comuns - uma metalinguagem:



Veja também a matéria que fiz neste blog sobre esse filme - REBOBINE, POR FAVOR - em 19 de outubro de 2008:

http://teresagenesini.blogspot.com/search?q=rebobine+filme

sábado, abril 04, 2009

TRÊS HISTÓRIAS


Freud, o criador da psicanálise dizia que por melhor que se leve uma análise, sempre tem um resto incompreensível, tanto no homem, quanto na mulher.

Jorge Forbes, freudiano e aluno de Lacan, o psicanalista lacaniano que linka a psicanálise com o mundo, diz: Toda decisão é precipitada, uma vez que sempre será incompleta; daí, inventiva.

Juntando esses dois pensamentos, me chamou a atenção esse texto - TRÊS HISTÓRIAS - de Noemi Jaffe e Leda Cartum, publicado na revista virtual TRÓPICO, no site da UOL. Escritora e sua filha contam viagem a Auschwitz, o campo de concentração de onde sua mãe e avó foi resgatada.

Dá para entender como a lembrança de alguém que foi presa num campo de concentração, durante a guerra, vira um diário que é entregue a um homem que se apaixona por ela; e que esse jovem enamorado usa as páginas em branco do diário para escrever cartas à amada, fazendo dessa tragédia uma históra de amor?

Esse casal -pais de Noemi e avós de Leda - veio para o Brasil. Noemi e Leda viajaram para a Alemanha. Viajaram para tentar costurar suas histórias, procurar os pontos que faltavam. É bom lembrar o que disse Freud - sempre há algo incompreensível e o que disse Jorge Forbes sobre a decisão e a incompletude.

Leia esse lindo texto, essas três histórias, escritas por mãe e filha, sobre a mãe e a avó, início de um livro que logo será publicado. Delicie-se, clicando no link:

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/3068,1.shl

Boa viagem!